
por André Deak
Parece ter saído de um conto de fadas - mas fadas não fumam haxixe. Flores espalham-se por janelas de pequenos sobrados de pedra, em ruas ainda de paralelepípedos; calçadas que lembram bosques, com um chão que veste um cobertor de retalhos, folhas cor de ferrugem; e há o céu, azul, que não ameniza o ar gelado de novembro. O tempo parece parado. Monotonia de outono, entretanto, que se quebra com o burburinho incessante de um pequeno mercado de artesanato, marijuana e haxixe. Estamos em Christiania, em Copenhague, na Dinamarca.
O turista desavisado que passa por København (Copenhague, em dinamarquês) nem sequer percebe Christiania. É como se fosse um bairro, incrustado que está na capital escandinava. Com excessão da "porta da frente", um arco sobre dois totens, entrada da colorida Pusher Street, é impossível dizer quando se está dentro ou fora da comunidade.
A história começa em 1971, quando um terreno do exército cheio de alojamentos abandonados foi invadido por grupos de hippies, libertários, socialistas, punks e fugitivos (da lei, dos pais, da sociedade convencional), entre tantos outros. Seguiam a sugestão de um artigo publicado em um jornal chamado Hovedbladet (Revista Cabeça), ele mesmo parte de uma exibição de arte chamada "Dar e Receber" que lotava Copenhague de "alternativos". Ao final da migração, foi declarado o nascimento oficial de Christiania, "uma sociedade alternativa livre, baseada na convivência com o próximo e com a natureza".
Guerra dos mundos
Quando o governo e a polícia perceberam o que ocorria na área militar, era tarde demais: já havia mais de mil pessoas morando lá, e, segundo a história conta, o espaço era muito grande para uma operação policial (90 mil metros quadrados). O assunto "Christiania" logo foi parar no Parlamento, que decidiu aceitar a área como "experimento social" até que se decidisse o que fazer com o espaço militar - contanto, claro, que seus moradores pagassem eletricidade, água e um aluguel para o Departamento de Defesa. De qualquer forma, conseguiram um espaço livre e autônomo, apesar de até hoje a tolerância política ser tênue: a polícia ainda faz "batidas" contra os vendedores de haxixe e marijuana.
Durante os primeiros anos, a cidade-livre tornou-se conhecida por suas ações no teatro e na política. Quem conseguiu maior sucesso nessa área foi um grupo chamado Solvognen. Uma de suas ações diretas mais famosas foi em 1973, quando a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma espécie de braço armado dos Estados Unidos na Europa, realizou um encontro de cúpula em Copenhagen. Inspirados no programa de rádio "Guerra dos Mundos" de Orson Welles, que simulou uma invasão de marcianos colocando em pânico a população norte-americana na década de 40, centenas de pessoas, lideradas pelo grupo de teatro de Christiania, fizeram parecer que um exército da OTAN tinha ocupado a Rádio Dinamarca e outros pontos estratégicos da cidade. A impressão que se tinha era que a Dinamarca estava ocupada por forças estrangeiras. Durante várias horas, o país inteiro ficou em dúvida se a invasão era teatro ou realidade. A ação foi uma dura crítica a intervenção dos Estados Unidos na vida dos países europeus.
O Solvognen também usou a critividade para contestar o comércio da maior festa do cristianismo. Em 1974, o grupo organizou o primeiro Natal dos Pobres da Dinamarca. Milhares de presentes foram distribuídos generosamente por um batalhão de Papai Noéis que estavam dentro das lojas de departamento da cidade. Detalhe: as lojas não sabiam nem haviam autorizado nada. O resultado é que todos foram presos, mas o escândalo ganhou as manchetes dos principais jornais da europa, com fotos de dezenas de Papais Noéis sendo espancados pela polícia. Até hoje o Natal dos Pobres continua sendo organizado - mas de uma maneira diferente: todo ano, aproximadamente duas mil pessoas participam de uma grande ceia.
A década de 1980 foi marcada pelas drogas. Em 1982, o governo começou uma campanha difamatória contra Christiania: a cidade-livre era considerada o centro das drogas do Norte da Europa e a raiz de muitos males. A comunidade teve então que organizar programas de recuperação de drogados e expulsar comerciantes de drogas pesadas, como a heroína. O mercado de haxixe continua funcionando normalmente. O governo dinamarquês nunca deixou Christiania em paz, e vários planos foram elaborados visando a "normalização e legalização" da área. Em janeiro de 1992, finalmente um acordo foi assinado. Christiania já tinha mais de vinte anos de independência e provara ao mundo que é possível viver em liberdade. Hoje, 32 anos depois, já foi foco de dezenas de estudos sociais e inspiração para outros projetos.
Como funciona?
Christiania é organizada em vários conselhos, onde todos os moradores têm direito a opinar e discutir os problemas comunitários. As decisões não são feitas por votação, mas sim através do consenso. Isso significa que não é a maioria que decide e sim que todos tem que estar de acordo com as decisões tomadas nas reuniões. Às vezes, contam-se os votos somente para se ter uma idéia mais clara das opiniões, mas essas votações não tem nenhum significado deliberativo, não contam como uma solução para os problemas da comunidade. Christiania é dividida em 15 áreas, cada uma administrada pelos seus moradores, para facilitar o funcionamento dos serviços básicos.
Todos têm a obrigação de viver com as decisões tomadas nas reuniões - e todos têm acesso e o direito de opinar. Mesmo com esta forma de democracia, algumas pessoas decidem não utilizar seus direitos - por exemplo, o tópico a ser discutido na reunião influencia bastante o quórum. Pode ser um processo difícil, e muitos christianitas (como são chamados seus habitantes) estão cansados de reuniões. Mas todos eles, inclusive os milhares de ex-moradores que hoje estão espalhados pelo mundo, aprenderam algo sobre auto-gestão através deste processo.
Foi assim que, ao longo dos anos, a cidade-livre aprimorou sua autogestão: casa comunitária de banhos (não há água quente), creche e jardim de infância, coleta e reciclagem de lixo; equipes de ferreiros para fazer aquecedores a lenha de barris velhos, lojas e fábricas comunitárias de bicicletas.



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