PS. MUDEI DE IDÉIA, VÁ SE FODER! Ltda.


24/06/2005


TEORIA X PRÁTICA EM TERRORISMO POÉTICO

 

Já ouvi muitas pessoas valorizando a prática do Terrorismo Poético (TP) e similares (Arte Sabotagem etc.) e menosprezando o falar sobre TP. Falar sobre TP vale menos que fazer o TP? Sem dúvida. Mas o fazer orientado pelo falar vale mais que somente a prática sem teoria. Uma TAZ pode ser feita espontaneamente. Mas TP, tendo o objetivo de mudar a vida de outra pessoa (no sentido de expandir a consciência, satori, Hakim Bey etc.), dificilmente surge de modo espontâneo, creio que apenas quando o TP já se torna um hábito na vida da pessoa. Além disso, o falar sobre TP já é uma prática, uma vez que toda ação é praticar, e falar, é agir. Porém existem diversos modos diferentes de agir. A esta altura, seria bom fazermos uma classificação:

 

- Prática teórica (ou simplesmente, teoria): o nome já diz tudo. Essa prática incluiria teorizar sobre os conceitos, classificação, estrutura, processo, sistema, exemplos, denominação etc. que embarcam o TP e seu universo. É o que você está fazendo enquanto discute Hakim Bey.

- Prática de planejamento (ou simplesmente, planejar): embora essa modalidade de prática também seja verbal, com a acima citada, ela inclui o planejar a prática prática. É o que você está fazendo quando pensa ou discute como fazer determinado TP.

- Prática prática (ou simplesmente, prática): nessa categoria, entra o realmente “fazer TP”.

 

Vemos então, que podemos diferenciar entre duas principais modalidades: o falar sobre TP e o fazer TP. Porém o falar sobre o TP pode ser dividida em duas categorias: o teorizar e o planejar, sendo que a teoria orienta o planejamento, e este, por sua vez, orienta o fazer o TP.

 

Deste modo, antes de criticar os outros por falarem sobre TP (teorizar ou planejar), saiba que só será possível fazer TP sem falar sobre TP, no momento em que isso virar uma ação automática, ou um hábito. E isso, primeiro que não sei é desejado. Segundo, que deve levar no mínimo anos.

Escrito por Capitão Barba Ruiva às 21h16
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20/06/2005


O CONCEITO DE METACONTINGÊNCIA... parte I

 

Uma ferramenta interessante para analisarmos práticas culturais, entendidas enquanto conjunto de ações que os membros de uma determinada sociedade, emitem é a metacontingência.

 

Metacontingência é um conceito proveniente da Análise do Comportamento, abordagem da psicologia que tem como arcabouço epistemológico e filosófico o behaviorismo radical. Epistemologia e filosofia estas, condenadas por dez entre dez dos psicólogos humanistas e até mesmo por autores influenciados pelos primeiros e que quem lê essa porra de blog já deve ter lido, como Robert Anton Wilson e outros.

 

Contingência, na terminologia técnica-científica da Análise do Comportamento, é a unidade de análise que descreve as relações funcionais entre o comportamento e o ambiente. Contingências são expressas nos termos “Se..., Então...”. Por exemplo, Se criancinha chata e birrenta chora, Então mamãe obedece à criança. Comportamento ou ação, neste contexto, é entendido como qualquer interação organismo-ambiente. Ambiente, por sua vez, é entendido como o conjunto de estímulos que afetam o comportamento (sendo assim, o ambiente é externo à ação, não ao organismo). Já estímulo, é entendido enquanto qualquer alteração ambiental que afeta o comportamento.

 

Esta unidade é utilizada para analisar (e intervir em) comportamentos de indivíduos. Para analisar (e intervir em) comportamentos de grupos, ou seja, práticas culturais, a Análise do Comportamento criou outra unidade de análise: a metacontingência.

 

Metacontingência é a unidade de análise que descreve as relações contingentes (Se..., Então...) entre práticas culturais e suas conseqüências. Para criarmos ou utilizarmos uma metacontingência, temos que identificar os seguintes fatores:

 

1-    Prática cultural de um grupo de indivíduos;

2-    Conseqüências desta prática para o grupo.

 

Sendo as práticas culturais, formadas pelo conjunto dos comportamentos dos indivíduos em grupo, temos que o comportamento de determinado indivíduo desse grupo tem uma conseqüência específica que atinge somente à ele. Por outro lado, os comportamentos do grupo, enquanto conjunto, tem outras conseqüências, as conseqüências culturais. São estas que selecionarão as contingências comportamentais (individuais), compreendendo as práticas culturais.

 

QUE MERDA ISSO TUDO QUER DIZER?

 

O modelo causal do Behaviorismo Radical consiste no que é denominado de “seleção por conseqüências”. Neste modelo, o repertório comportamental do do indivíduo não tem uma causa mecanicista (como pregam os seus críticos, dizendo que para os analistas do comportamento, tudo se resume ao estímulo que causa a resposta), mas antes, ele é produto de três espécies de seleção realizadas pelo ambiente. A seleção filogenética, que selecionou os comportamentos da espécie (comportamentos comuns a todos os membros de uma determinada espécie). A seleção ontogenética que consiste no conjunto de experiências que moldam o comportamento do indivíduo ao longo de sua vida. E por último, a seleção cultural, seleção que a cultura na qual o indivíduo está inserido realiza.*

 

Escrito por Capitão Barba Ruiva às 02h28
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O CONCEITO DE METACONTINGÊNCIA ... parte II

As metacontingências nos permitem entender exatamente o relacionamento entre a influência que a cultura no comportamento do indivíduo, a influência que o conjunto de comportamentos do grupo tem para a cultura, e como a cultura realiza a seleção deste conjunto de comportamentos, o qual reflete no comportamento individual.

 

EXEMPLO: PROFISSÕES

 

Para entendermos as práticas culturais de uma determinada sociedade, temos que entender então, as conseqüências desta prática para a cultura como um todo. O comportamento do indivíduo será selecionado pelas suas conseqüências. Uma ampla gama das contingências que selecionam os comportamentos do indivíduo, porém são selecionados, por sua vez, pelas conseqüências que os comportamentos do primeiro, quando acrescidos dos comportamentos de outros do grupo (as práticas culturais) geram para a cultura. Confuso, não?

 

Podemos entender as profissões como práticas culturais. O indivíduo que exerce determinada profissão, tem diversas conseqüências para estes comportamentos, conseqüências estas que são diferentes para cada um (por exemplo, dinheiro, fama, prestígio etc.). Porém, para a cultura, a existência de determinada profissão (ou em outros termos, o conjunto de comportamentos que caracterizam um profissional de determinada profissão) tem uma (ou mais) conseqüência (s) comum (ns) à estes comportamentos. A existência de uma outra profissão na sociedade deve-se à tais conseqüências.

 

Desta forma, podemos entender uma profissão não somente pelos comportamentos que a caracterizam, mas também pelas conseqüências que os mesmos geram para a cultura. De forma mais fácil: pra saber o porquê de determinada profissão, temos que enxergar quais suas conseqüência para a cultura. Se estas conseqüências são reforçadoras para a cultura, a profissão continuará existindo. Caso contrário, esta prática extingui-se. Se quiséssemos entender a “motivação” do indivíduo para exercer determinada profissão, teríamos que analisar as conseqüências individuais que esta profissão traz para o indivíduo. O que procuramos entender aqui, não é o comportamento do indivíduo isoladamente, mas as práticas da cultura.

 

Neste texto, peguei como exemplo, de prática cultural, as profissões, porém poderia pegar qualquer outra prática cultural. Pretendo fazer isso em outros textos.

 

O nascimento da psiquiatria e da psicologia teve como conseqüência a legitimização do internamento dos loucos, agora, entendidos como doentes mentais. Esta legitimização do internamento dos loucos, podemos dizer, que é a causa (ou em termos mais exatos, a função) do nascimento da psiquiatria e da psicologia.

 

Qual a conseqüência cultural da existência da profissão policial? Servir proteger com qual função? O direito à propriedade? Segurança de uns contra os outros? Exclusão dos infratores / contraventores?

 

Qual a conseqüência cultural da existência da profissão do político? Os ricos serem beneficiados? Os pobres serem beneficiados? A República transformar-se em Império?

 

Claro que não podemos generalizar. Dentro de uma cultura, uma profissão pode ter determinadas conseqüências, enquanto em outra cultura, a mesma profissão pode ter outras conseqüências. Mas deu pra pegar o espírito.

 

Só consegui captar o sentido total dessa ferramenta de análise cultural há poucos dias. Pretendo prosseguir nesse tema. Foda-se!

 

 

 

* Não é difícil vermos a influência de Darwin e sua seleção natural neste modelo causal de comportamento.

 

** Essa foto não tem nada a ver com o assunto em questão, mas na minha opinião, é um dos diálogos mais foda que eu  já vi no cinema.

Escrito por Capitão Barba Ruiva às 02h27
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